sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Menina das Maçãs





Depois de ter sido divulgada como fato real o próprio Herman

Rosenblatt esclareçeu publicamente que concentação e, posteriormente,
encontrando Rama, o grande amor de sua vida, que também havia crescido
e vivsua "história de amor" só ocorreu em "sua imaginação", ligando
"fatos reais de sua vida em campos de endo os hrorrores de contínuas
perseguições, mudanças involuntárias, medos e inseguranças."
Agora se sabe que essa "história", da forma que foi contada e abaixo
transcrita, "com uma garota judia jogando maçans sob a cerca de um
campo de concentração para um garoto judeu, e anos depois
reencontrarem-se em Nova York, sem saberem quem era quem, e se
apaixonarem perdidamente…" não ocorreu de fato. Assista a entrevista
de Herman, concdida àe ABC News.

Por Herman Rosenblat *
Agosto de 1942 – Piotrkow, Polônia.
Naquela manhã o céu estava sombrio, enquanto esperávamos ansiosamente.
Poucas horas antes todos os homens, mulheres e crianças do gueto judeu
de Piotrkow foram arrancados de suas casas e arrebanhados na praça do
gueto – para remoção coletiva, segundo os rumores que se espalhou.
Meu pai havia falecido recentemente de tifo, que se alastrara através
do gueto abarrotado. Meu maior medo era separarem nossa família.
"O que quer que aconteça," murmurou Isidore, meu irmão mais velho.
"Não lhes diga a sua idade verdadeira; diga que tem dezesseis anos".
Apesar de magro em virtude da falta de alimentos eu era bem mais alto
do que outros meninos de 11 anos que conhecia; talvez poderia ser
confundido e assim, ser considerado valioso como um trabalhador.
Um homem da SS se aproximou com passos firmes, com botas estalando nas
pedras grosseiras do piso. Olhou-me de cima a baixo e perguntou minha
idade. "Dezesseis", eu disse. Ele mandou-me ir à esquerda, onde já
estavam meus três irmãos e outros jovens saudáveis.
Herman
Ela jamais havia falado de forma tão aspera assim! Depois eu entendi
porque ela havia falando daquela forma comigo: ela estava me
protegendo. Ela nos amava tanto que, apenas naquela única vez, ela
fingiu não fazê-lo. Foi a última vez que a vi.
Meus irmãos e eu fomos transportados de trem até a Alemanha. Semanas
depois, confinado dentro de um vagão de gado que parava várias vezes
por dia em virtude de incotáveis barreiras e paradas, chegamos ao
campo de concentração de Buchenwald e fomos imediatamente conduzidos a
uma barraca lotada. No dia seguinte recebemos uniformes e números de
identificação.
"Não me chamem mais de Herman", eu disse aos meus irmãos. "Chamem-me 94938″.
Colocaram-me para trabalhar no crematório do campo, carregando corpos
em um elevador manual. Ao fim do primeiro dia de trabalho eu também já
me sentia como morto; insensibilizado por aquele horror eu me tornara
simplesmente um número. Logo, meus irmãos e eu fomos mandados para
Schlieben, um dos sub-campos de Buchenwald, perto de Berlim.
Em uma certa manhã pensei que ouvi a voz de minha mãe: "Filho" disse
ela, suave mas claramente; "Vou mandar-te um anjo." Então acordei,
havia sido apenas um sonho! Um lindo sonho! Mas nesse lugar não
poderia haver anjos. Havia apenas trabalho, fome, medo, dor e morte…
Dias depois, caminhando sozinho entre as barracas do campo, próximo a
uma das cercas de arame farpado, onde os guardas não podiam enxergar
facilmente, observei alguém do outro lado da cerca: uma pequena menina
com suaves, quase luminosos cachinhos. Ela estava meio escondida atrás
de uma bétula. Dei uma olhada em volta para certificar-me de que
ninguém me via, e a chamei baixinho, em alemão.
"Você tem algo para comer?" Mas ela não entendeu. Aproximei-me mais da
cerca e sempre olhando para os lados repeti a pergunta em Polonês. Eu
estava magro e raquítico, com farrapos envolvendo meus pés, mas a
menina parecia não ter medo e se aproximou. Em seus olhos eu vi vida.
Ela pegou uma maçã do seu casaco de lã e a jogou sobre a cerca.
Agarrei a fruta e, assim que comecei a fugir, ouvi-a dizer baixinho,
"Virei vê-lo amanhã"!
Daquela dia em diante, com precauções sempre renovadas, sempre que
podia voltava ao mesmo local da cerca, na mesma hora. Ela estava
sempre lá, com algo de comer para me dar – um pedaço de pão ou, melhor
ainda, uma maçã. Em todos aqueles momentos jamais ousávamos falar ou
demorarmos. Sermos pegos significaria morte para nós dois. Não sabia
nada sobre ela, apenas que era uma menina de fazenda entendia Polonês.
Qual era o seu nome? Porque ela arriscava sua vida por mim?" Boa parte
de minhas poucas esperanças em sobreviver estava naquele pequeno
suprimento de alimentos que aquela menina, do outro lado, me trazia.
Aproximadamente sete meses depois, eu e meus irmãos fomos abarrotados
em um vagão de carvão e enviados para o campo de Theresiensatdt, na
Tchecoeslováquia. "Não volte", eu disse para a menina naquele dia.
"Estamos partindo". Voltei-me em direção às barracas sem olhar para
trás, com medo de ser apanhado. Nem mesmo disse adeus a pequena
menina, cujo nome eu nunca aprendi. A menina das maçãs.
Permanecemos em Theresienstadt por três meses. A guerra estava
diminuindo e as forças aliadas se aproximando, muito embora meu
destino parecia estar selado: estava agendado para morrer na câmara de
gás às 10 horas da manhã do dia 10 de maio de 1945. Soube disso
através de outro prisioneiro que limpava os escritórios do campo e
sempre que possível lia ordens do camando afixados em alguns quadros.
Assim, por muitas vezes ficavamos sabendo o que iria ocorrer nos dias
seguintes. Quando soube disso, não chorei, não tinha mais lágrimas
para chorar. Não tinha mais medo da morte; na verdade, algumas vezes a
desejava… Mesmo assim, nos três crepúsculos silenciosos das noites que
antecederam o dia marcado, tentei me preparar para minha morte. Por
tantas vezes a morte pareceu pronta para me reclamar, mas de alguma
forma eu sobrevivi. Agora, tudo estava acabado. Pensei nos meus pais.
Ao menos, pensei, estaríamos reunindos novamente.
No entanto, pouco antes das 8:00 horas do dia em que estava marcado
para morrer, ocorreu uma comoção no campo. Ouvi explosões, tiros,
gritos… Olhei pela porta da barraca onde estava e vi pessoas correndo
em todas as direções através do campo. Juntei-me aos meus irmãos e
perguntei-lhe o que estava ocorrendo, mas não sabia de nada. Minutos
depois um prisioneiro entra no barraco onde estávamos e grita: "Os
russos estão aqui, os alemães estão mortos ou fujiram, os portãos do
campo estão abertos!" Saímos e vimos todos correndo para for a do
campo, então corremos também sem sabermos para onde íamos.
Surpreendentemente, eu e meus irmãos sobrevivemos. Não tenho certeza
como, mas sabia que aquela menina das maçãs tinha sido uma das razões
da minha sobrevivência.
No local onde o mal parecia triunfar, a bondade de uma pessoa gerou-me
esperanças e acabou contrinuíndo para salvar a minha vida.
Minha mãe havia prometido enviar-me um anjo, e o anjo apareceu…
Com a ajuda e piedade de tantos que encontrei pelos caminhos que
percorri depois da libertação do campo, meses depois consegui chegar à
Inglaterra, onde fui socorrido pela Caridade Judaica: me alojaram em
uma hospedaria com outros meninos que sobreviveram ao Holocausto e em
uma escola onde, além do inglês e disciplinas regulares estudavamos
eletrônica. Cinco anos depois fui para os Estados Unidos, para onde
meu irmão Sam já havia se mudado. Servi no Exército por dois anos
durante a Guerra da Coréia e retornei a Nova Iorque.
Em agosto de 1957, com economias que fiz do salário que recebi no
exército, abri uma lojinha de consertos eletrônicos. Estava começando
a estabelecer-me, a verdadeiramente iniciar uma nova vida…
Um dia, meu amigo Sid, que conheci da Inglaterra, me telefonou.
"Tenho um encontro. Ela tem uma amiga polonesa. Vamos sair juntos?"
Um encontro às cegas? Não, isso não era para mim.
Mas Sid insistiu tanto que poucos dias depois fomos ao Bronx buscar a
garota com quem Sid iria sair, e a amiga dela, a polonesa Roma.
Tenho que admitir, para um encontro às cegas, não foi tão ruim. Roma
era enfermeira em um hospital do Bronx. Ela era gentil e esperta.
Bonita, também, com cabelos castanhos cacheados e olhos verdes
amendoados que faiscavam com vida.
Nós quatro nos dirigimos até Coney Island. Roma mostrou ser uma boa
companhia com quem era fácil falar e gostoso de se estar junto.
Descobri que ela era igualmente cautelosa com encontros às cegas.
No início, estávamos apenas fazendo um favor aos nossos amigos. Demos
um passeio na beira da praia, gozando a brisa salgada do Atlântico e
depois jantamos perto da margem. Não poderia me lembrar de ter tido
momentos melhores.
Voltamos ao carro do Sid, Roma e eu dividimos o assento traseiro.
Como judeus europeus que haviam sobrevivido à guerra, sabíamos que
muita coisa foi deixada sem ser dita entre nós. Ela puxou o assunto,
"Onde você estava", perguntou delicadamente, "durante a guerra?"
"Nos campos de concentração", disse. Terríveis memórias, irreparáveis
perdas… Tentei esquecer, mas como esqueçer tantas dores?
"Minha família se escondeu em uma fazenda na Alemanha, próximo de
Berlim", disse-me ela. "Meu pai conhecia um padre, e ele nos deu
papéis arianos."
Imaginei como ela deve ter sofrido também, medo, uma constante
companhia. Mesmo assim, aqui estávamos, ambos sobreviventes, em um
mundo novo.
"Havia um campo perto da fazenda", continuou Roma. "Eu via um menino
lá e sempre que possível lhe jogava alguma comida, especialmente
maçãs."

Herman e Roma
"Ele era alto, magro e faminto. Devo tê-lo visto, quase diariamente,
por uns seis meses."
Meu coração estava aos pulos, descontrolado. Não podia acreditar. Isso
não podia ser!!!
"Ele lhe disse, um dia, para você não voltar porque ele estava saindo
de Schlieben?".
Roma me olhou estupefata, de uma forma tão profunda que senti como se
meus olhos tivessem sidos atravessados. "Sim!".
"Era eu!".
Estava para explodir com um misto de alegria e susto inundado meu
coração. Não podia acreditar! Reencontrei a menina das maçãs, o meu
anjo!
"Não vou deixar você partir", disse-lhe em seguida. E na trazeira
daquele carro, naquele encontro às cegas, pedi-a em casamento. Não
queria esperar.
"Você está louco!", disse ela. Mas convidou-me para conhecer seus pais
no jantar do Shabbat da semana seguinte.
Havia tanto que eu ansiava descobrir sobre Roma, mas as coisas mais
importantes eu sempre soube: sua firmeza, sua bondade. Por muitos
meses, nas piores circunstâncias, ela veio até a cerca e me trouxe
esperanças.
Semanas depois, com o consentimento da família, ela disse sim. Hoje,
após quase 50 anos de casamento, dois filhos e três netos, ela
continua sendo meu ano e eu jamais a deixarei partir…
Se alguém viver quatrocentos anos, ele dificelmente passará pelas
experiências que passei em sessenta…
* Herman Rosenblat, sobrevivente do holocausto, tecnico eletrônico
aposentado. A vida não permitiu que Herman celebrasse seu Bar Mitzvah
(cerimônia religiosa onde os meninos judeus marcam sua entrada na
maioridade; mas em fevereiro de 2006, então com 75 anos de idade,
finalmente o fez…

Notas
1. Os nomes verdadeiros dos atores reais desta história de vida são
Herman e Rona Rosenblat. Os nomes reais foram revelados posteriormente
pelos próprios protagonistas, em reportagem (com fotos do casal) da
revista Guideposts, na edição de agosto de 2006.
2. Depois da entrevista à revista Guideposts, o casal se recolheu e
não concedeu mais entrevistas à imprensa.
3. O nome Herman Rosenblat conta no catalogo telefônico de Miami
(edição 2007), o que faz supor de que pelo menos um deles ainda está
vivo.
4. Esta "história" foi adaptada para o cinema e filmada pela Atlantic
Overseas Pictures em parceria com a EuroCo Productions, com o título
Flower of the Fence, estrelado por Richard Dreyfuss.
5. Este artigo foi originalmente publicado em inglês por Our Prayer

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